Encyclopædia Britannica 1911

um trecho ligeiramente retocado do artigo « Hegel » da Encyclopædia Britannica de 1911.

0 - Fenomenologia do Espírito

O hegelianismo passa, por confissão geral, por uma das mais difíceis de todas as filosofias. Todos já ouviram a lenda que faz Hegel dizer: « Um só homem me entendeu, e nem mesmo ele me entendeu. » Ele nos lança de repente num mundo em que os velhos hábitos de pensamento nos faltam. Em três lugares, é verdade, ele tentou mostrar a passagem de outros níveis do pensamento ao seu próprio sistema; mas em nenhum com muito êxito. Nas preleções introdutórias à filosofia da religião, dá razão da diferença entre os modos da consciência na religião e na filosofia (entre Vorstellung e Begriff). No início da Enzyklopädie, discute os defeitos do dogmatismo, do empirismo, das filosofias de Kant e de Jacobi. No primeiro caso trata o aspecto formal ou psicológico da diferença; no segundo apresenta sua doutrina menos em seu caráter essencial do que em suas relações particulares com os sistemas em evidência de seu tempo. A Fenomenologia do Espírito (« Geist »), considerada como introdução, padece de um defeito de outra espécie. Não é uma introdução — pois a filosofia que devia introduzir não estava então plenamente elaborada. Nem mesmo ao fim havia Hegel exteriorizado seu sistema a ponto de tratá-lo como algo a que se devesse ser conduzido por graus. Sua filosofia não era um aspecto de sua vida intelectual, a ser contemplado a partir de outros; era o fruto maduro de uma reflexão concentrada, e se tornara a forma e o princípio únicos e abrangentes de seu pensamento. Mais do que a maioria dos pensadores, ele se abrira em silêncio aos influxos de seu tempo e às lições da história. A Fenomenologia é a imagem da filosofia hegeliana em seu fazer-se — no estágio em que o andaime ainda não foi retirado do edifício. Por isso o livro é ao mesmo tempo o mais brilhante e o mais difícil das obras de Hegel — a Phänomenologie — o mais brilhante, porque é em certa medida uma autobiografia da mente de Hegel: não o registro abstrato de uma evolução lógica, mas a história real de um crescimento intelectual; o mais difícil, porque em vez de tratar a ascensão da inteligência (desde seu primeiro aparecimento em contraste com o mundo real até o reconhecimento final de sua presença em todas as coisas e de seu domínio sobre elas) como um processo puramente subjetivo, expõe essa ascensão tal como se cumpriu em épocas históricas, caracteres nacionais, formas de cultura e de fé, e sistemas filosóficos. O tema é idêntico ao da introdução à Enzyklopädie; mas é tratado em estilo bem diverso. De todos os períodos do mundo — da piedade medieval e do orgulho estoico, de Kant e de Sófocles, da ciência e da arte, da religião e da filosofia — com desdém da mera cronologia, Hegel colhe nas vinhas do espírito humano os cachos de que espreme o vinho do pensamento. A mente que atravessa mil fases de erro e de decepção até o sentimento e a realização de sua verdadeira posição no universo: tal é o drama que é conscientemente a própria história de Hegel, mas que é representado objetivamente como o processo da história espiritual que o filósofo reproduz em si. A Fenomenologia está para a Enzyklopädie mais ou menos como os diálogos de Platão estão para os tratados aristotélicos. Contém quase toda a sua filosofia — mas irregularmente e sem a devida proporção. O elemento pessoal dá relevo excessivo aos fenômenos recentes da atmosfera filosófica. É o relato que um inventor faz de sua própria descoberta, não a explicação de um estranho. Ela assume, portanto, em certa medida desde o princípio a posição que se propõe alcançar por último, e dá não uma prova dessa posição, mas um relato da experiência (Erfahrung) pela qual a consciência é impelida de uma posição a outra até encontrar repouso no Absolutes Wissen. A Fenomenologia não é nem mera psicologia, nem lógica, nem filosofia moral, nem história, mas tudo isso e muito mais. Não precisa ser destilada, mas ampliada e ilustrada pelo pensamento e pela literatura contemporâneos e anteriores. Trata das atitudes da consciência diante da realidade sob os seis títulos da consciência, da autoconsciência, da razão (Vernunft), do espírito (Geist), da religião e do saber absoluto. A atitude nativa da consciência diante da existência é fiar-se no testemunho dos sentidos; mas basta um pouco de reflexão para mostrar que a realidade atribuída ao mundo exterior se deve tanto a concepções intelectuais quanto aos sentidos, e que essas concepções escapam quando tentamos fixá-las. Se a consciência não pode descobrir fora de si um objeto permanente, tampouco a autoconsciência pode encontrar em si um sujeito permanente. Ela pode, como o estoico, afirmar a liberdade mantendo-se à parte dos embaraços da vida real; ou, como o cético, ter o mundo por ilusão; ou, enfim, como « consciência infeliz » (Unglückliches Bewusstsein), ficar sempre aquém de uma perfeição que pôs acima de si nos céus. Mas nesse isolamento em relação ao mundo, a autoconsciência fechou suas portas à corrente da vida. A percepção disso é a razão. A razão, convencida de que o mundo e a alma são igualmente racionais, observa o mundo exterior, os fenômenos mentais, e especialmente o organismo nervoso como lugar de encontro do corpo e da mente. Mas a razão encontra no mundo muito que não lhe reconhece parentesco algum; e voltando-se então para a atividade prática, busca no mundo a realização de seus próprios fins. Ora, de modo grosseiro, persegue seu próprio prazer e descobre que a necessidade contraria seus anseios; ora se esforça por achar o mundo em harmonia com o coração, e no entanto não suporta ver belas aspirações cristalizarem-se no ato mesmo de realizá-las. Por fim, incapaz de impor ao mundo fins egoístas ou humanitários, cruza os braços numa virtude farisaica, com a esperança de que algum poder oculto dará a vitória à justiça. Mas o mundo segue sua vida, indiferente às exigências da virtude. O princípio da natureza é viver e deixar viver. A razão abandona seus esforços de moldar o mundo e contenta-se em deixar que os fins dos indivíduos produzam independentemente seus resultados, intervindo apenas para estabelecer preceitos nos casos em que as ações individuais entram em conflito, e para provar esses preceitos segundo as regras da lógica formal.

Até aqui vimos a consciência de um lado e o mundo real de outro. O estágio do Geist revela a consciência não mais como crítica e antagonista, mas como o espírito que habita uma comunidade; não mais isolada de seu entorno, mas como a união da consciência singular e real com o sentimento vital que anima a comunidade. É o grau mais baixo da consciência concreta — a vida, e não o saber; o espírito inspira, mas não reflete. É a idade da moralidade inconsciente, em que a vida do indivíduo se perde na sociedade de que é membro orgânico. Mas a cultura crescente apresenta novos ideais, e a mente, absorvendo o espírito ético de seu meio, emancipa-se aos poucos das convenções e das superstições. Esse esclarecimento (« Aufklärung ») prepara o caminho para o reino da consciência moral, para a visão moral do mundo como sujeito de uma lei moral. Do mundo moral, o passo seguinte conduz à religião; a lei moral cede lugar a Deus; mas também a ideia da divindade, tal como primeiro aparece, é imperfeita, e há de atravessar as formas do culto da natureza e da arte antes de alcançar plena expressão no cristianismo. A religião sob esta figura é o grau mais próximo do estágio do saber absoluto; e esse saber absoluto — « o espírito que se sabe como espírito » — não é algo que deixe atrás de si aquelas outras formas, mas a plena compreensão delas como elementos orgânicos de seu império: « elas são a memória e o sepulcro de sua história, e ao mesmo tempo a efetividade, a verdade e a certeza de seu trono. » Aí se acha, segundo Hegel, o campo da filosofia.

1 - Ciência da Lógica

O prefácio da Fenomenologia assinalava a separação de Schelling — o adeus ao romantismo. Declarava que uma filosofia genuína não tem parentesco com as meras aspirações dos espíritos artísticos, mas deve ganhar seu pão com o suor do rosto. Ela se opõe ao idealismo que ora trovejava contra o mundo por suas deficiências, ora buscava algo mais fino do que a realidade. A filosofia há de ser a ciência do mundo efetivo — é o espírito compreendendo-se a si mesmo em suas próprias exteriorizações e manifestações. A filosofia de Hegel é idealismo, mas um idealismo em que toda unificação idealista tem sua outra face na multiplicidade da existência. É realismo tanto quanto idealismo, e nunca larga sua presa sobre os fatos. Comparado a Fichte e a Schelling, Hegel tem um caráter sóbrio, duro, realista. Mais tarde, com o chamado de Schelling a Berlim em 1841, tornou-se moda falar do hegelianismo como de uma filosofia negativa que precisaria ser completada por uma filosofia « positiva » que desse realidade e não meras ideias. O grito era o mesmo de Krug, que intimava os filósofos expositores do absoluto a lhe construírem a pena. Era o grito da escola evangélica que reclamava um Cristo pessoal e não um Logos dialético. Os direitos do indivíduo, do real, do fato material e histórico, dizia-se, haviam sido sacrificados por Hegel ao universal, ao ideal, ao espiritual e ao lógico.

Havia algo de verdadeiro nessas críticas. O próprio fim do hegelianismo era tornar fluidas as fases fixadas da realidade — mostrar que a existência não é uma rocha imóvel que limita os esforços do pensamento, mas tem o pensamento implícito em si, à espera de ser libertada de sua petrificação. A natureza não devia mais ser, como em Fichte, um mero trampolim para suscitar as potências latentes do espírito. Nem devia ser, como no primeiro sistema de Schelling, uma progênie colateral da mente, nascida do mesmo seio de indiferença e identidade. A natureza e a mente no sistema hegeliano — o mundo exterior e o mundo espiritual — têm a mesma origem, mas não são ramos de igual posto. O mundo natural procede da « ideia »; o espiritual, da ideia e da natureza. É impossível, partindo do mundo natural, explicar a mente por algum processo de destilação ou de desenvolvimento, a menos que a consciência, ou sua potencialidade, ali estivesse desde o princípio. Deve haver, pois, uma realidade independente da consciência individual; uma realidade independente de toda mente é uma impossibilidade. No fundamento de toda realidade, material ou mental, está o pensamento. Mas o pensamento assim considerado como fundamento de toda existência é a consciência com sua distinção de eu e não-eu. Ele é antes a matéria de que são feitos tanto a mente quanto a natureza, nem extensa como no mundo natural, nem centrada em si como na mente. O pensamento em sua forma primeira é, por assim dizer, inteiramente transparente e absolutamente fluido, livre e mutuamente penetrável em cada uma de suas partes — o espírito em sua vida científica seráfica, antes que a criação houvesse produzido um mundo natural e o pensamento se houvesse erguido à existência independente no organismo social. O pensamento nessa forma primeira, quando acabado em todas as suas partes, é o que Hegel chama a « ideia ». Mas a ideia, embora fundamental, é em outro sentido última no processo do mundo. Ela só aparece na consciência como o desenvolvimento que coroa a mente. Só com a filosofia o pensamento se torna plenamente consciente de si em sua origem e em seu desenvolvimento. Por isso a história da filosofia é o pressuposto da lógica; ou então: os três ramos da filosofia formam um círculo.

A exposição, ou constituição, da « ideia » é a obra da Lógica. Assim como o sistema total se divide em três partes, assim cada parte do sistema segue a lei triádica. Toda verdade, toda realidade, tem três aspectos ou estágios; ela é a unificação de dois elementos contraditórios, de dois aspectos parciais da verdade que não são meramente contrários, como o preto e o branco, mas contraditórios, como o mesmo e o diverso. O primeiro passo é uma afirmação e uma unificação preliminares; o segundo, uma negação e uma diferenciação; o terceiro, uma síntese final. Por exemplo, a semente da planta é uma unidade inicial de vida que, posta no solo que lhe convém, sofre a desagregação em seus constituintes, e todavia, em virtude de sua unidade vital, mantém juntos esses elementos divergentes e reaparece como a planta com seus membros em união orgânica. Ou ainda: o processo da indução científica é uma cadeia de três elos; a hipótese originária (a primeira unificação do fato) parece dissolver-se diante de fatos contrários, e todavia nenhum progresso científico é possível se o impulso da unificação originária não for forte o bastante para abraçar os fatos discordantes e estabelecer uma reunificação. Tese, antítese e síntese — fórmula fichtiana — é generalizada por Hegel como lei perpétua do pensamento (para a discussão desses três passos por Hegel, ver os parágrafos 79-82 de sua Enciclopédia).

Sob o que podemos chamar seu aspecto psicológico, esses três estágios são conhecidos como o estágio abstrato, ou do entendimento (Verstand), o estágio dialético, ou da razão negativa, e o estágio especulativo, ou da razão positiva (Vernunft). A primeira dessas atitudes, tomada isoladamente, é o dogmatismo; a segunda, igualmente isolada, é o ceticismo; a terceira, não explicada por seus elementos, é o misticismo. Assim o hegelianismo reduz dogmatismo, ceticismo e misticismo a fatores da filosofia. O pensador abstrato ou dogmático crê que seu objeto é uno, simples e imóvel, e inteligível à parte do que o cerca. Fala, por exemplo, como se as espécies e os gêneros fossem fixos e imutáveis; e fixando os olhos nas formas ideais em sua pureza e identidade consigo, despreza o mundo fenomênico, do qual essa identidade e permanência estão ausentes. A dialética da razão negativa dissipa rudemente essas teorias. Apelando à realidade, mostra que a identidade e a permanência das formas são desmentidas pela história; em vez de unidade exibe multiplicidade; em vez de identidade, diferença; em vez de um todo, apenas partes. A dialética é, portanto, uma potência que desloca; abala as sólidas construções do pensamento enrijecido e põe a descoberto a instabilidade latente em tais concepções do mundo. Ela é o espírito do progresso e da mudança, inimiga da convenção e do conservadorismo; é inquietude absoluta e universal. No reino do pensamento abstrato esses trânsitos ocorrem com leveza. Nos mundos da natureza e da mente são mais palpáveis e violentos. Até aqui Hegel parece do lado da revolução. Mas a razão não é apenas negativa; enquanto desagrega a massa, isto é, a unidade inconsciente, edifica uma nova unidade de organização superior. Mas esse terceiro estágio é o lugar do esforço: não exige nem o abandono da unidade originária nem o ignorar a diversidade depois surgida. O aguilhão da contradição é sem dúvida forte; mas o modo mais fácil de escapar dele é fechar os olhos a um dos lados da antítese. O que se requer, portanto, é reajustar nossa tese originária de modo a incluir e exprimir ambos os elementos do processo.

O universo é, pois, aos olhos da filosofia, um processo, um desenvolvimento. É o processo do absoluto — em linguagem religiosa, a manifestação de Deus. Ao fundo de tudo, o absoluto está eternamente presente; o movimento rítmico do pensamento é o desdobrar-se de si do absoluto. Deus se revela na ideia lógica, na natureza e na mente; mas a mente não tem igualmente consciência de sua absolutidade em cada estágio do desenvolvimento. Só a filosofia vê Deus revelando-se no organismo ideal do pensamento — como uma divindade possível anterior ao mundo e a toda relação entre Deus e a efetividade; no mundo natural, como uma série de forças materializadas e de formas de vida; e no mundo espiritual, como a alma humana, a ordem jurídica e moral da sociedade, e as criações da arte, da religião e da filosofia.

Essa introdução do absoluto tornou-se pedra de tropeço para Feuerbach e outros membros da « Esquerda ». Rejeitaram como interpolação ilegítima o sujeito eterno do desenvolvimento, e, em vez de um Deus contínuo como sujeito de todos os predicados pelos quais na lógica o absoluto é definido, admitiram apenas uma série de ideias, produtos da atividade filosófica. Negaram o valor teológico das formas lógicas — sendo, a seu ver, o desenvolvimento dessas formas obra do pensador humano, não de um absoluto que se revela. Fizeram assim do homem o criador do absoluto.

Mas a essa modificação do sistema seguia-se necessariamente outra: uma mera série lógica não podia criar a natureza. E assim o universo material tornou-se o verdadeiro ponto de partida. O pensamento passou a ser apenas o resultado de condições orgânicas — subjetivo e humano; e o sistema de Hegel deixou de ser uma idealização da religião para ser uma teoria naturalista dotada de uma lógica notável e peculiar.

A lógica de Hegel é a única rival da lógica de Aristóteles. O que Aristóteles fez pela teoria do raciocínio demonstrativo, Hegel tentou fazer pelo conjunto do saber humano. Sua lógica é uma enumeração das formas, ou categorias, pelas quais nossa experiência existe. Ela levava adiante a doutrina kantiana das categorias como princípios sintéticos a priori, mas removia a limitação pela qual Kant lhes negava todo valor constitutivo fora da aliança com a experiência. Segundo Hegel, os termos em que o pensamento se expõe formam um sistema próprio, com leis e relações que reaparecem sob figura menos manifesta nas teorias da natureza e da mente. Nem estão restritos ao pequeno número que Kant obteve manipulando a corrente subdivisão dos juízos. Mas todas as formas pelas quais o pensamento mantém as sensações na unidade (os elementos formadores ou sintéticos da linguagem) receberam seu lugar num sistema em que uma conduz à outra e nela passa.

O fato que o pensamento ordinário ignora, e do qual portanto a lógica ordinária não dá conta, é a presença da gradação e da continuidade no mundo. Os termos gerais da linguagem simplificam o universo reduzindo sua variedade de indivíduos a poucas formas, nenhuma das quais existe simples e perfeitamente. O método do entendimento consiste em dividir e depois dar uma realidade separada ao que assim distinguiu. Faz parte do desígnio de Hegel remediar esse caráter unilateral do pensamento pondo a descoberto as gradações das ideias. Ele insiste de modo particular neste ponto: as ideias abstratas, mantidas em sua abstração, são quase intercambiáveis com as suas opostas — os extremos se tocam, e em toda ideia verdadeira e concreta há coincidência dos opostos.

O começo da lógica é uma ilustração disso. A ideia lógica é tratada sob os três títulos do ser (Sein), da essência (Wesen) e do conceito (Begriff). O termo mais simples do pensamento é o ser; não podemos pensar nada de menor a respeito de coisa alguma do que dizendo simplesmente que ela é. O ser — o « é » abstrato — não é nada de determinado, e o nada ao menos é. O ser e o não-ser são assim declarados idênticos, proposição que nessa forma sem ressalvas foi para a maioria uma pedra de tropeço já no limiar do sistema. Em vez do simples « é », que ainda não é nada, deveríamos antes dizer « devém »; e como « devir » implica sempre « algo », temos o ser-aí — « um ser » que no grau seguinte de determinidade se torna « um ». E por esse caminho passamos aos aspectos quantitativos do ser.

Os termos tratados sob o primeiro título são, além dos já mencionados, os princípios abstratos da quantidade e do número, e sua aplicação na medida para determinar os limites do ser. Sob o título da essência discutem-se aqueles pares de termos correlativos habitualmente empregados na explicação do mundo — tais como lei e fenômeno, causa e efeito, razão e consequência, substância e atributo. Sob o título do conceito consideram-se, em primeiro lugar, as formas subjetivas da noção, do juízo e do silogismo; em segundo lugar, sua realização em objetos constituídos mecânica, química ou teleologicamente; e em terceiro lugar, a ideia, primeiro da vida e depois da ciência, como compenetração completa de pensamento e objetividade. A terceira parte da lógica é manifestamente a que contém os temas habitualmente tratados nos manuais de lógica, embora também aqui o âmbito da lógica em sentido ordinário seja ultrapassado. As duas primeiras divisões — a « lógica objetiva » — são o que de ordinário se chama metafísica.

O caráter próprio do sistema é o modo gradual pelo qual a ideia se encadeia à ideia, de sorte que a divisão em capítulos não é senão uma disposição de comodidade. O juízo completa-se no silogismo; a forma silogística, como perfeição do pensamento subjetivo, passa à objetividade, onde aparece primeiro encarnada num sistema mecânico; e o objeto teleológico, em que os membros são como meios e fim, conduz à ideia da vida, onde o fim é meio e o meio fim, indissoluvelmente, até a morte. Em alguns casos esses trânsitos podem resultar insatisfatórios e forçados; é manifesto que o desenvolvimento linear do « ser » à « ideia » se obtém transformando em ordem lógica a sucessão que grosseiramente prevaleceu na filosofia desde os eleatas; poderiam citar-se casos em que o raciocínio parece um jogo de palavras; e pode-se muitas vezes duvidar de que certas ideias não impliquem considerações extralógicas. A ordem das categorias está fixada em suas grandes linhas; mas nos pormenores menores muito depende do filósofo, que deve preencher as lacunas entre as ideias com pouco auxílio dos dados da experiência, e atribuir aos estágios do desenvolvimento nomes que às vezes tratam duramente a língua. O mérito de Hegel é ter indicado e em larga medida exposto a filiação e a limitação recíproca de nossas formas de pensamento; tê-las ordenado segundo sua capacidade comparada de dar uma expressão satisfatória da verdade na totalidade de suas relações; e ter derrubado a divisória que em Kant separava a lógica formal da analítica transcendental, bem como a ruptura geral entre lógica e metafísica. Há de reconhecer-se ao mesmo tempo que boa parte do trabalho pelo qual os termos do pensamento, as categorias, são tecidos em sistema tem caráter hipotético e tentativo, e que Hegel antes apontou o caminho que a lógica deve seguir — a saber, uma crítica dos termos do pensamento científico e ordinário em sua filiação e interdependência — do que ele mesmo se manteve em todos os casos no caminho certo. O dia de uma investigação mais plena deste problema dependerá em parte dos progressos do estudo da linguagem na direção traçada por W. von Humboldt.

2 - Filosofia da Natureza

A Filosofia da Natureza (2.º livro da « Enzyklopädie ») parte do resultado do desenvolvimento lógico, da « ideia » científica acabada. Mas as relações do puro pensamento filosófico, perdendo sua interioridade, aparecem como relações de espaço e de tempo; o desenvolvimento abstrato do pensamento aparece, na natureza, como matéria e movimento. Em vez do pensamento temos a percepção; em vez da dialética, a gravitação; em vez da causalidade, a sucessão no tempo. O todo se ordena sob os três títulos da mecânica, da física e do « orgânico » — variando um tanto o conteúdo de cada um nas três edições da Enzyklopädie. O primeiro trata do espaço, do tempo, da matéria, do movimento; e no sistema solar temos a representação da ideia em sua forma material geral e abstrata.

Sob o título da física vêm a teoria dos elementos, do som, do calor e da coesão, e por fim da afinidade química — que apresentam os fenômenos da mudança e da troca material numa série de forças particulares que geram a variedade da vida da natureza.

Por fim, sob o título do « orgânico », vêm a geologia, a botânica e a fisiologia animal — que apresentam os resultados concretos desses processos nos três reinos da natureza.

A censura de analogias superficiais, tão de bom grado dirigida à « Naturphilosophie » por críticos que esquecem o impulso que ela deu à pesquisa física ao identificar forças então tidas por radicalmente distintas, não atinge particularmente Hegel. Mas em geral pode dizer-se que ele olhava de cima o mero mundo natural. A mais humilde das fantasias da mente e o mais casual de seus caprichos pareciam-lhe melhor garantia do ser de Deus do que qualquer objeto isolado da natureza. Os que julgavam que a astronomia inspirava temor religioso escandalizaram-se ao ouvir comparar as estrelas a erupções cutâneas no rosto do céu. Mesmo no mundo animal, grau mais alto da natureza, ele via o fracasso em alcançar um sistema de organização independente e racional; e descrevia seus sentimentos, sob a violência contínua e as ameaças do meio, como inseguros, angustiados e infelizes.

O ponto de vista de Hegel opunha-se por essência às opiniões correntes da ciência. À metamorfose ele concedia apenas um valor lógico, como explicação da classificação natural; a única metamorfose real, existente, via-a no desenvolvimento do indivíduo desde seu estágio embrionário. Ainda mais nitidamente contrariava a tendência geral da explicação científica. « Tem-se por um triunfo da ciência reconhecer no processo geral da terra as mesmas categorias que se mostram nos processos de corpos isolados. Isso é, porém, aplicar categorias vindas de um campo em que as condições são finitas a uma esfera em que as circunstâncias são infinitas. » Em astronomia ele diminui os méritos de Newton e eleva Kepler, acusando Newton em particular, a propósito da distinção entre força centrífuga e centrípeta, de conduzir a confundir o que é matematicamente a distinguir e o que é fisicamente separado. Os princípios que explicam a queda de uma maçã não valerão para os planetas. Quanto à cor, segue Goethe e usa palavras duras contra a teoria de Newton: a barbárie da concepção segundo a qual a luz seria um composto, a inexatidão de suas observações, etc. Em química, de novo, objeta ao modo como todos os elementos químicos são tratados no mesmo plano.

3 - Filosofia do Espírito

A terceira parte do sistema é a « Philosophie des Geistes ». As três divisões da Filosofia do Espírito (« Geist ») são

  • O Espírito subjetivo — trata, entre outras coisas, da antropologia e da psicologia.
  • O Espírito objetivo — explora as questões filosóficas do direito, da moral, da filosofia política e da história, entre outras.
  • O Espírito absoluto — considera as belas-artes, a religião e a própria filosofia como ciência do geral.

Os objetos dessas divisões, sobretudo da segunda e da terceira, foram tratados por Hegel com grande detalhe. O « espírito objetivo » é o tema da Rechts-Philosophie e das preleções sobre a Filosofia da história; ao passo que sobre o « espírito absoluto » temos as preleções sobre a Estética, sobre a Filosofia da religião e sobre a História da filosofia — em suma, mais de um terço de sua obra.

3.1 - Espírito subjetivo

O ramo puramente psicológico do assunto ocupa metade do espaço concedido ao « Geist » na Enzyklopädie. Ele se ordena sob os três títulos da antropologia, da fenomenologia e da psicologia propriamente dita.

A antropologia trata da mente em união com o corpo — da alma natural — e discute as relações da alma com os planetas, as raças humanas, as diferenças de idade, os sonhos, o magnetismo animal, a loucura e a frenologia. Nessa região obscura ela é rica em sugestões e aproximações; mas a engenhosidade dessas especulações atrai a curiosidade mais do que satisfaz a investigação científica.

Na Fenomenologia tratam-se a consciência, a autoconsciência e a razão. O título da seção e seu conteúdo lembram, com algumas variações importantes, a primeira metade de sua obra de estreia; só que aqui desapareceu o pano de fundo histórico sobre o qual eram representados os estágios do desenvolvimento do eu.

A psicologia, em sentido estrito, trata das várias formas do intelecto teórico e prático, tais como a atenção, a memória, o desejo e a vontade.

Neste relato do desenvolvimento de um ser independente, ativo e inteligente a partir do estágio em que o homem, como a dríade, não é senão uma porção da vida natural que o cerca, Hegel reuniu o que se pode chamar uma fisiologia e uma patologia da mente — assunto bem mais vasto do que o das psicologias ordinárias, e de imensa importância intrínseca. É naturalmente fácil pôr de lado essas questões como sem resposta, e achar artifício na disposição. Continua, todavia, notável ter ao menos tentado algum sistema nas obscuras anomalias que jazem sob a consciência normal, e ter seguido a gênese das faculdades intelectuais a partir da sensibilidade animal.

3.2 - Espírito objetivo

A teoria da mente objetivada nas instituições do direito, da família, da sociedade e do Estado é exposta nos « Princípios da filosofia do direito ». Partindo da antítese de um sistema jurídico e da moralidade, Hegel, prosseguindo a obra de Kant, apresenta a síntese desses elementos na eticidade (Sittlichkeit) da família, da sociedade e do Estado. Tratando a família como realização instintiva da vida moral, e não como resultado de um contrato, mostra como, por meio de associações mais amplas nascidas dos interesses privados, o Estado surge como plena morada do espírito moral, onde a intimidade da interdependência se une à liberdade de um crescimento independente. O Estado é a consumação do homem enquanto finito; é o ponto de partida necessário de onde o espírito se eleva a uma existência absoluta nas esferas da arte, da religião e da filosofia. No mundo finito, ou Estado temporal, a religião, enquanto organização finita de uma Igreja, está, como as demais sociedades, subordinada ao Estado. Mas por outro lado, enquanto espírito absoluto, a religião, como a arte e a filosofia, não está sujeita ao Estado: pertence a uma região superior.

O Estado político é sempre um indivíduo, e as relações desses Estados entre si, juntamente com o « espírito do mundo » de que são as manifestações, constituem a matéria da história. As Preleções sobre a filosofia da história, editadas por Gans e depois por Karl Hegel, são a mais popular das obras de Hegel. A história do mundo é uma cena de juízo em que um povo, e um só, segura por um tempo o cetro, como instrumento inconsciente do espírito universal, até que outro se levante em seu lugar, com uma medida mais plena de liberdade — uma superioridade maior frente aos laços da circunstância natural e artificial. Três grandes períodos — o oriental, o clássico e o germânico — nos quais, respectivamente, o déspota sozinho, a ordem dominante e o homem enquanto homem possuem a liberdade, constituem a história do mundo. A inexatidão no detalhe e o artifício na disposição de povos isolados são inevitáveis em tal esquema. Erro mais grave, segundo alguns críticos, é que Hegel, longe de dar uma lei do progresso, parece sugerir que a história do mundo se aproxima do fim, e que apenas reduziu o passado a uma fórmula lógica. A resposta a essa censura é em parte que tal lei parece inalcançável, e em parte que o conteúdo idealista do presente, que a filosofia dele extrai, vai sempre à frente do fato efetivo, e lança portanto uma luz sobre o futuro. E de todo modo o método vale mais do que o uso que Hegel dele fez.

3.3 - Espírito absoluto

Como em Aristóteles, assim em Hegel: para além da esfera ética e política ergue-se o mundo do espírito absoluto nas belas-artes, na religião e na filosofia. A distinção psicológica (ver a divisão hegeliana do intelecto teórico dentro de sua psicologia) entre as três formas é que o órgão da primeira é a intuição sensível (Anschauung), o da segunda a representação (Vorstellung), e o da terceira o livre pensamento (Begriff).

3.3.1 - Filosofia das belas-artes

A obra de arte, primeira encarnação do espírito absoluto, mostra uma conformidade sensível entre a ideia e a realidade em que ela se exprime. A chamada beleza da natureza é para Hegel uma beleza adventícia. A beleza da arte é uma beleza nascida no espírito do artista e renascida no espectador; não é, como a beleza das coisas naturais, um acidente de sua existência, mas é « essencialmente uma pergunta, um dirigir-se a um peito que responde, um apelo ao coração e ao espírito ». A perfeição da arte depende do grau de intimidade com que a ideia e a forma aparecem trabalhadas uma na outra. Da diferente proporção entre a ideia e a figura em que ela se realiza nascem três formas diferentes da arte. Quando a ideia, em si indeterminada, não vai além de uma luta e de um esforço rumo à sua expressão apropriada, temos a forma simbólica da arte — a oriental — que busca compensar sua expressão imperfeita com construções colossais e enigmáticas. Na segunda forma da arte, a clássica, a ideia da humanidade encontra uma representação sensível adequada. Mas essa forma desaparece com a morte da vida nacional grega, e ao seu colapso segue-se a romântica, terceira forma da arte, onde a harmonia de forma e conteúdo torna a fazer-se defeituosa, porque o objeto da arte cristã — o espírito infinito — é um tema alto demais para a arte. A essa divisão corresponde a classificação das artes particulares. Vem primeiro a arquitetura — no essencial arte simbólica; depois a escultura, arte clássica por excelência; encontram-se, contudo, nas três formas. A pintura e a música são as artes especificamente românticas. Por último, como união de pintura e música, vem a poesia, onde o elemento sensível está mais do que nunca subordinado ao espírito.

As preleções sobre a Filosofia das belas-artes estendem-se largamente para a esfera seguinte e demoram-se com gosto no estreito vínculo entre arte e religião; e a discussão da decadência e do nascimento das religiões, das qualidades estéticas da lenda cristã, da idade da cavalaria, etc., faz da Estética um livro de vário interesse.

3.3.2 - Filosofia da religião

As preleções sobre a Filosofia da religião, embora desiguais em sua composição e pertencentes a datas diversas, servem para mostrar o vínculo vital do sistema com o cristianismo. A religião, como a arte, é inferior à filosofia como intérprete da harmonia entre o homem e o absoluto. Nela o absoluto existe como a poesia e a música do coração, na interioridade do sentimento.

Depois de expor a natureza da religião, Hegel passa às suas fases históricas, mas, sendo então imatura a ciência das religiões, incorre em vários erros. No fundo da escala dos cultos da natureza ele põe a religião da feitiçaria. As gradações que se seguem são repartidas com alguma incerteza entre as religiões do Oriente. Com a religião persa da luz e a egípcia dos enigmas passamos àquelas fés em que a divindade assume a forma de uma individualidade espiritual, isto é, à religião hebraica (da sublimidade), à grega (da beleza) e à romana (da adaptação).

Vem por fim a religião absoluta, na qual o mistério da reconciliação entre Deus e o homem é doutrina manifesta. É o cristianismo, no qual Deus é Trindade, porque é espírito. A revelação dessa verdade é o objeto das Escrituras cristãs. Pois o Filho de Deus, em seu aspecto imediato, é o mundo finito da natureza e do homem, o qual, longe de ser uno com seu Pai, está originariamente em atitude de alienação. A história de Cristo é a reconciliação visível entre o homem e o eterno. Com a morte de Cristo essa união, deixando de ser um mero fato, torna-se uma ideia viva — o Espírito de Deus que habita na comunidade cristã.

3.3.3 - Filosofia

As preleções sobre a História da filosofia tratam as diversas épocas de modo desproporcionado, e algumas partes remontam ao início da carreira de Hegel. Ao procurar submeter a história à ordem da lógica, elas por vezes desconhecem a história das ideias. Mas criaram a história da filosofia como estudo científico. Mostraram que uma teoria filosófica não é um acidente nem um capricho, mas o intérprete de sua época, determinado por seus antecedentes e seu meio, e que entrega seus resultados ao futuro.

(O texto acima foi tirado do artigo « Hegel » da Encyclopædia Britannica de 1911 e ligeiramente retocado pela Hegel.Net)